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O ITBI cresceu. O mercado, quase nada.

Curitiba arrecadou R$ 63,7 milhões com o imposto de transmissão em julho — 9,5% acima de julho de 2025. O número de transações subiu 2,2%. A diferença entre os dois crescimentos chama um nome: preço.

Publicado em 16/08/2026 ·5 min de leitura
O ITBI cresceu. O mercado, quase nada.
Imagem ilustrativa · Mercado & Incorporação
Arrecadação ITBI · Jul/2026
R$ 63,7M
+9,5% vs Jul/2025
Melhor julho da série histórica
Transações estimadas · Jul
~610
+2,2% vs Jul/2025
597 transações em jul/2025
Ticket médio ITBI · Jul/2026
R$ 104k
+7,2% vs Jul/2025
Era R$ 71k em jul/2024

O ITBI é o mais honesto dos termômetros imobiliários: ele só existe quando a escritura é assinada e o registro é feito em cartório. Não conta promessa de compra, não conta plantão de vendas, não conta lançamento de incorporadora. Conta negócio fechado.

Em julho de 2026, Curitiba registrou R$ 63,7 milhões em ITBI arrecadado — o melhor julho desde que a série foi iniciada, em 2015. A notícia boa para quem acompanha o mercado para dentro: a atividade existe. A notícia que exige atenção: o volume de transações estimado em julho foi de 610 negócios, praticamente o mesmo de julho de 2025 (597). Os 9,5% a mais no caixa da prefeitura vieram do preço de cada imóvel, não da quantidade de imóveis vendidos.

O crescimento que não é crescimento de volume

O ticket médio do ITBI — o valor médio do imposto coletado por transação — chegou a R$ 104.439 em julho de 2026. Um ano antes, era R$ 97.398. Dois anos antes, R$ 71.314. A alta de 46% no ticket em dois anos não significa que os compradores de Curitiba ficaram 46% mais ricos: significa que o perfil de quem consegue fechar negócio mudou. Saiu o comprador de crédito SFH de R$ 500 mil; ficou o comprador de imóvel mais caro, com entrada maior, financiamento menor ou capacidade de compra à vista.

−33%
queda no número estimado de transações imobiliárias em Curitiba entre Jan–Jul/2024 (5.373 negócios) e Jan–Jul/2026 (3.591 negócios) — uma diferença de 1.782 escrituras a menos em sete meses.

A comparação com 2024 é a que mais incomoda. No acumulado de janeiro a julho de 2024, Curitiba registrou cerca de 5.373 transações imobiliárias. No mesmo período de 2026: 3.591. Uma diferença de 1.782 negócios — ou 33% a menos — em apenas dois anos. A arrecadação de ITBI, no mesmo intervalo, cresceu 9%: de R$ 338,5 milhões para R$ 369,1 milhões. O mercado está movendo menos imóveis por muito mais dinheiro cada.

O acumulado que conta a história completa

Período Arrecadação ITBI Transações est. Ticket médio Var. transações
Jan–Jul/2022R$ 256,3M4.566R$ 56,1k
Jan–Jul/2023R$ 281,2M5.103R$ 55,8k+11,8%
Jan–Jul/2024R$ 338,5M5.373R$ 71,3k+5,3%
Jan–Jul/2025R$ 354,4M3.700R$ 97,4k−31,1%
Jan–Jul/2026R$ 369,1M3.591R$ 104,4k−3,0%

A tabela mostra com precisão onde ocorreu a ruptura: em 2025. Entre 2022 e 2024, o mercado crescia em número de transações e em valor. A arrecadação subia porque havia mais negócios e cada negócio valia mais. Em 2025, o número de transações caiu 31% — a maior queda interanual da série — enquanto a arrecadação cresceu apenas 4,7%. A queda de 2025 coincide com a escalada da taxa SFH, que saiu de 11% ao ano no início de 2024 para 13% ao ano no segundo semestre.

Julho em perspectiva histórica

Mês Arrecadação Trans. est. Ticket YoY arrec.
Jul/2022R$ 41,0M730R$ 56,1k
Jul/2023R$ 41,8M749R$ 55,8k+1,9%
Jul/2024R$ 56,1M786R$ 71,3k+34,1%
Jul/2025R$ 58,2M597R$ 97,4k+3,8%
Jul/2026R$ 63,7M610R$ 104,4k+9,5%

Em julho de 2024, o mercado imobiliário curitibano fechou 786 escrituras — o maior julho da série. Dois anos depois, em julho de 2026, foram 610 estimados. A arrecadação saltou de R$ 56,1 milhões para R$ 63,7 milhões no mesmo intervalo — alta de 13,6% — mas o volume de negócios caiu 22%. Cada escritura de julho de 2026 coletou, em média, R$ 104,4 mil de ITBI. A de julho de 2024, R$ 71,3 mil — 46% a menos.

O que explica o paradoxo

Há dois mecanismos em ação simultânea. O primeiro é a exclusão pelo crédito: com a taxa SFH em 13,4% ao ano, o comprador que precisaria financiar R$ 500 mil por 30 anos paga hoje uma prestação 20% maior do que pagaria em 2024. Parte desse público saiu do mercado ou migrou para imóveis mais baratos — fora do alcance do ITBI mais alto. O segundo mecanismo é a seleção de perfil: os compradores que continuam operando são os com maior liquidez, que compram imóveis mais caros, pagam mais ITBI por unidade e sustentam o crescimento da arrecadação mesmo com menor volume.

O resultado é um mercado que, visto pela arrecadação, parece saudável — e, visto pela contagem de escrituras, revela uma contração relevante. Dezembro de 2025 foi o melhor mês da série: R$ 70,1 milhões em ITBI e 699 transações. Julho de 2026 entrou com o melhor número de arrecadação para um mês de julho — e com um volume de negócios que equivale a 78% do que havia dois anos atrás.

Metodologia — Série histórica de arrecadação do ITBI construída a partir dos relatórios mensais do Portal da Transparência da Prefeitura de Curitiba (CD de receita 1112530101010000000000, excluída dívida ativa). O número de transações para Jan/2015–Nov/2024 é derivado de registros históricos de lançamentos. Para Dez/2024 em diante, estimado pelo quociente entre arrecadação mensal e ticket médio projetado com crescimento tendencial de 7% ao ano, calibrado sobre Nov/2024. Série completa disponível em itbi_curitiba_mensal.csv.